A principal reflexão despertada durante a participação na Mesa Diretriz realizada no evento Smart City Business 2026:
As cidades inteligentes podem se consolidar como vetores de crescimento sustentável quando deixam de ser apenas espaços de adoção de tecnologias e passam a atuar como ecossistemas de inovação orientados por evidências científicas, capazes de integrar desenvolvimento econômico, inclusão social e sustentabilidade ambiental. Nesse processo, as universidades desempenham um papel estratégico, pois são elas que produzem conhecimento, formam recursos humanos qualificados e oferecem a base científica necessária para orientar políticas públicas de longo prazo.
No caso do Hub Internacional para o Desenvolvimento Sustentável – HIDS Unicamp, essa integração ocorre por meio de um modelo que reúne universidades, empresas, governos, sociedade civil e meio ambiente — a chamada quíntupla hélice — em um território concebido como um laboratório vivo (living lab). Nesse ambiente, novas tecnologias para energia, mobilidade, biotecnologia, TIC e adaptação climática podem ser testadas em condições reais, gerando evidências para subsidiar decisões públicas antes de sua implementação em maior escala. A inovação, portanto, não se restringe ao desenvolvimento tecnológico. Ela também envolve inovação institucional e novos modelos de governança capazes de transformar resultados de pesquisa em políticas públicas mais eficazes. Isso permite que investimentos em infraestrutura inteligente sejam acompanhados por melhorias na qualidade de vida, maior resiliência climática, redução das desigualdades e geração de empregos qualificados.
Sugestão de uma ação com base no conhecimento:
Implantar laboratórios vivos (living labs) liderados pelas universidades, reunindo governos, empresas e sociedade para testar soluções urbanas em escala real e produzir evidências que orientem políticas públicas. Dessa forma, a universidade deixa de ser apenas um centro de produção de conhecimento e passa a atuar como uma plataforma permanente de inovação para o desenvolvimento sustentável, acelerando a geração de empregos qualificados, a atração de investimentos e a construção de cidades mais resilientes, inteligentes e inclusivas.
No Programa de Implantação do HIDS Unicamp propomos um Pavilhão da Transição Justa, cuja missão é articular ciência, governos, organismos internacionais e sociedade civil para desenvolver e testar políticas públicas, observatórios territoriais, plataformas de dados e programas de formação de gestores públicos, consolidando a universidade como agente central da governança e da sustentabilidade.
No caso do HIDS Unicamp, uma ação imediata seria acelerar a implantação dos Pavilhões de Inovação, em especial do Pavilhão da Transição Justa, um ambiente que permitirá produzir evidências sobre temas como mobilidade sustentável, eficiência energética, adaptação às mudanças climáticas e inclusão social, transformando o território em um laboratório para o desenvolvimento de políticas públicas replicáveis em outras cidades.
Os desafios percebidos:
O principal obstáculo não é a falta de tecnologia ou de conhecimento científico. O Brasil possui universidades, centros de pesquisa e empresas altamente qualificados. O desafio é transformar esse conhecimento em políticas públicas permanentes, por meio de uma governança capaz de integrar diferentes atores e superar a fragmentação institucional.
Muitos municípios enfrentam limitações técnicas e institucionais para transformar conhecimento em políticas públicas consistentes e de longo prazo. As iniciativas frequentemente permanecem isoladas, dependentes de um governo específico ou restritas a projetos-piloto que não se consolidam como políticas estruturantes.
A forma de contornar esse desafio é fortalecer a capacidade institucional dos municípios por meio de parcerias permanentes com universidades. As universidades podem atuar como produtoras de evidências, formadoras de gestores públicos e articuladoras de ecossistemas de inovação, permitindo que decisões sobre mobilidade, energia, uso do solo, adaptação climática e desenvolvimento econômico sejam baseadas em conhecimento científico.O modelo proposto pelo HIDS demonstra esse caminho ao integrar universidade, empresas, governos e sociedade em um ambiente de experimentação contínua. Essa abordagem reduz riscos, qualifica investimentos públicos e acelera a adoção de soluções que já foram testadas em condições reais. Assim, a inovação deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser também institucional, fortalecendo a governança e a capacidade dos municípios de formular políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável.
Insight para o desenvolvimento:
A chave é entender que infraestrutura é um meio, não um fim. O retorno econômico e social ocorre quando ela é integrada a um ecossistema de inovação liderado pelo conhecimento. As universidades são fundamentais nesse processo porque formam pessoas, desenvolvem tecnologias, apoiam o surgimento de novas empresas e produzem evidências para políticas públicas. Assim, cada investimento em infraestrutura passa a gerar inovação, empregos qualificados e soluções para os desafios da sociedade, criando um ciclo virtuoso de desenvolvimento sustentável.

Roberto Donato, coordenador do HIDS Unicamp (Hub Internacional para o Desenvolvimento Sustentável) e diretor executivo de Sustentabilidade da Unicamp (DExS)
Matéria concedida por Roberto Donato durante a sua particiação como palestrante convidado do FBGA no Smarty City Business 2026
Mesa de Diretrizes 15 – Cidades Inteligentes como Vetores de Crescimento Sustentável: Como integrar inovação, infraestrutura e desenvolvimento econômico com geração de emprego e impacto social?
Data: 17/06/2026
Início: 14:30 | Término: 16:00
Local: Mesa 3 | Categoria: Mesa de Diretrizes
